sábado, 2 de julho de 2011

CONFIDÊNCIAS DE AMOR EM TRÊS CAPÍTULOS - TOMO III



A  M  O  R       F  O  G  O - F  Á  T  U  O


          Eu já vejo saudade por todo lugar. Percorrer teu corpo e sentir sua intimidade não passaram incólumes por meu coração. Eu sofrí a perda da pessoa que melhor me conheceu...E que mais me amou. Fui pontual ao te conhecer, fui leal como um canino. Mas o que podemos fazer se a conta de luz e da água e de todas as minhas dívidas não nos querem ver felizes. Possuo cicatrizes dos sofrimentos que sofrí naquele dia em que você não enxergou quem eu sou e qual o significado da sua pessoa para minha vida. "Nunca imaginei ficar sem você e não dividir minha vida com você...As cicatrizes estão desaparecendo...Mas as cicatrizes amocionais, contudo,  perduram. Estou mais forte, mais sábio, menos ingênuo. Estou cético, desconfiado...Temeroso e magoado... é solitário ser eu." Não é fácil amar, acreditar no amor e viver o desamor como se fôssemos ângulos opostos pelo vértice. É triste e desolador viver o amor-razão. Ponderar o amor é como viver com rédeas, tal qual quiséssemos andar de carro com freio de mão acionado. É muito triste parar o acalanto que sentia com tua forma de abraçar. Ouvir você dizer:  "Você me completa". Com a inocência da pureza de uma uma criança. Tuas curvas, teu cheiro que ficaram nos lençóis, a saudade está por todo lado...E o coração partido. Quero apenas me regenerar da extirpação do meu sentimento que a sua respiração ofegante me causou. Como um anacoreta estou, e terei que me acestizar diante de ti, sei que estou numa aravia baixa mas também sei que minhas palavras cortam mais do que navalhava afiada. Foram as vicissitudes que modificaram nosso curso natural. Sim, tentei ser altruísta, cheio de esperança acreditando que o amor jamais acaba. Não se vence sem amar! Vou levar p'ras profundezas oceâncias nossos sentimentos... Ficar te aguardando e ver o teu sorriso ao se abrir a porta, aliás,  ficar na expetativa de te aguardar e ver você chegar foi para mim como sentir um pouco do que é ser filho do Criador, e às vezes sentir também, por pura dádiva divina,  o que é ser filho e ser pai. Vou te contemplar sempre pelo curto espaço temporal que tivemos na intensa qualidade, fomos por algum momento eternidade. Vou te guardar e te proteger num nicho muito especial pois te amei e vou esperar o teu sorriso chegar... Sua pessoa chegar... Te abraçar... Dizer: Eu te amo meu amor ! Eu te anistio em nome da liberdade do amor. Mais uma vez eu morrí, pois morrí sempre que o amor foi apunhalado... Mas você continua viva, sorridente, confiante e feliz na minha memória. Quero ser como Fênix, preciso renascer das cinzas.
          Sei que à maneira que você gozou foi tão forte quanto os remorsos e as dores sentidas fincadas pelos pais suicidas.

                                        Recife, agosto de 2008.
                              WALKER LIMA












M  A  R  A  C  A  T  Ú         B  R  I  T    N  I  C  O



          Por trás da Biblioteca Pública de Olinda em plena natureza daquela praça "in natura" eu te ví nua e, no torno, quem desvirginou quem? Foi ali mesmo naquela praça em pleno carnaval olidense que dias após eu te levei e tirei tua tanguinha pele de tigre, você tigresa, bem próximo da Avenida da Liberdade, em Olinda-Carmo. Você deve ter sentido o cheiro do vinho licoroso e delicioso que  eu adquiria na Matriz do Carmo, diretamente com os Padres, sabe o que é viagem... Tempos antes havia te encontrado em plena Av. Guararapes em Recife e após uma cerveja bem gelada tomada num daqueles bares já decadentes mas com conservado encanto dos anos 50, fomos para um prédio daqueles que ficam acima das marquizes da Rua da Concórdia e subimos e ficamos num quarto onde somente nós éramos juvens. Tua cor jamais esquecerei e o brilho do luar sobre a tua pele, tua forma toda bem feita, teu jeito mimado de falar e o pessoal eclético e mambembe da tua turma... Daquele quarto eu ficava vendo a publicidade feita de neon azul, era assim: Dois pinguins saíam, um da direita e outro da esquerda e se encontravam no centro sob o círculo que formava a marca da cervejaria e ai acendia o letreiro "Antáctica - A Cerveja Nossa". 
          Da última vez que te vi,  você estava morando em Londres e dançava maracatú por lá, meu amor.

WALKER LIMA
Olinda. Fev. 2009




















e










L   U   Í   Z   A       M  E  U       A  M  O  R


          Bem ali detrás da capela que servia para a oblação dos encarcerados do Aljube de Olinda, em Pernambuco, nós nos enroscávamos sobre aqueles pregos fincados no chão com intuito de serem evitados que casais desavisados tivessem a ousadia de fazer aquilo que nós fizemos num misto de heresia e santidades, sim estávamos separados do mundo naquele momento que sua tez brilhava entre o moreno cabocla e o negro lunar, eu nem sentia aquela cama de faquir porque teus cabelos pretos ficavam enroscando no meu rosto. Sabe Luíza, antes desse encontro instintivo que chegamos a pular juntos o muro que circunda a pequena capela daquela oitocentista cadeia eclesiática, mesmo antes de suarmos juntos ali entrelaçados pelo amor, eu já tinha a imagem instantânea e viva dos seus cabelos, fixada  no exato dia que cheguei a Bodocongó, em Campina  Grande, na Paraíba, bem no Planalto da Borborema: A inesquecível visão dos teus encantadores cabelos de bela moça, simplesmente enlouquecí. Depois nossos papos bem em frente à praia de Boa Viagem, no Recife. Me lembro como agora da tua conversa-cabeça de dizer: Observe o nível  da água do alto mar e veja que nós estamos na beira mar bem abaixo da linha do horizonte do alto mar, eu ficava matutando naquilo...Teu belo apartamento com aquele jeito de ter 3 planos, fantástica aquela arquitetura nos levou para embolarmos numa simples rede. Você fez questão de construir comigo o inesquecível, até ao extremo do teu jeito vanguardista quando um dia "roubou" aquele fusquinha verde água da garagem dos teus pais e vi como estou vendo agora a lembrança quando você parou o carro na minha frente e os meus olhos ficaram cintilantes pelos cromados, daí você abriu a porta para eu entrar naquela tarde e fomos nos amar naquela espelunca chamada nem sei de quê, mas que tinha aquela típica "comadre" nordestina que passava na porta gritando: "Olha a hora! Olha a hora!"


WALKER LIMA
Olinda, fevereiro 2009


sexta-feira, 1 de julho de 2011

CONFIDÊNCIAS DE AMOR EM TRÊS CAPÍTULOS - TOMO II



B  A  R  A  L  H O







          Nós jogamos tantas partidas, passamos tantas horas jogando cartas, talvez a sedução das cartas, das partidas. Quem sabe a figura graciosa do precioso Jockey; Rei e Rainha. Tantas anotações em inúmeras contas que colocávamos lado a lado nas colunas com nossas iniciais. No jogo da vida eu te ganhei, foste minha como a elegante rainha e te perdí meu amor. Quantas vezes te ví nua como uma natural corredeira d'água, uma cachoeira...Galopei por teu corpo como um solitário cavaleiro em busca do teu prazer, te amei, te traí. Fui louco ao te deixar tão só... Teus cabelos me fizeram encanto de morena flor da terra, fui profundamente dentro de ti. Sentí  tua felicidade todas as vezes que nos encontramos, eu ainda guardo tuas lembranças no coração. Quanta gratidão saber que estás na face da terra. Não te vejo mas sinto profundamente teu amor impresso como a graciosidade das cartas, das partidas. Mas tua partida da minha posse foi como um tiro no peito, doeu muito. Você se foi para o mundo mas nossas lembranças são irretocáveis. Fomos casal de beleza, despertamos decerto muitos olhares, imprimimos na face da terra nossa força de amor. Mas sinto saudades tranquilas, saudades de amor, te quero sempre. Porisso somos livres na face do mundo, somos amor de verdade minha amável rainha... galopar sobre ti... te aprisionar p'ra quê? Se já sou  teu prisioneiro de amor, se meu coração pulsa ao te ver livre, se te amo como um cativo, como um homem que criou a prisão sem grades, sem paredes, sem torturas. Criei a prisão do amor. E o amor não admite adjetivos para a liberdade. O amor pressupõe a liberdade. Eu sou teu escravo, sou teu prisioneiro, sou tua carta marcada, sou teu vencedor e vencido, eu sou teu amor esteja onde quer que seja.


Recife, dezembro de 2007     WALKER LIMA













T  R  Á  G  I  C  O       A  M  O  R

          A primeira imagem sua foi de morena de cabelos longos, de pureza  de virgem estampada na face, tão linda, tão bela. Eu vi a jovem mulher, eu vi a beleza da Criação, estampada no teu rosto, vi sobretudo o teu sorriso emanando  pureza de jovem de dezenove anos, vinda do seio desta terra, cabloca, inteligente de uma meiguice contagiante, a própria virgem moreninha cheia de secura de amor. O destino nos reservou a intimidade, a alcova e a confusa realidade que Tolstoy revelou à respeito da alcova e suas implicâncias. A verdade foi que recebí o presente divino de desfrutar sua intimidade. Não fui propriamente um príncipe encantado, nem tão pouco um cavalheiro. Eu fui prazeroso, fui deleitoso, fui religioso ao quebrar suas virtudes virginais. Fui no Templo das Virgens dentro de ti, fomos dramáticos como Tolstoy cantou. Ultrapassamos limites ao quebrar a própria cama de solteira da tua única irmã.  Realmente Lev Tolstoy eu concordo contigo: A Maior tragédia da humanidade está na alcova. Fui trágico. Eu ainda te amo meu amor fruto da nossa terra. Você me devirginou... Trágico amor...


Recife, dezembro de 2007     WALKER LIMA













A     C A S A     I N A C A B A D A






          Você é sempre uma casa infinda; incompleta; interminável e infinita. Passei muito tempo para compreender o significado de algo inacabado no amor, você é assim. Você representa a ruptura do quase amor, ou melhor: do amor incompleto. Aconteceu entre nós uma quebra promovida por uma força superior, quando nos conhecemos tudo foi sendo construído passo a passo e dia a dia. Fomos várias transformações, chegamos mesmo à simbiose. Assim como o curso natural da própria vida, como o inevitável acontecimento de quem faz infundir o vinho na taça, equivale dizer, não há como retroceder o vinho vertido. Como dizer que o amor foi completo se não te possuo mais ?!? Como fazer parar de derramar o vinho se não posso mais correr as curvas do teu corpo... Teu jeito de fazer amor...A maneira simples de amar e sua invejável estabilidade emocional. Quando te conhecí foi uma noite pernambucana, completa. Seu jeito de me encantar foi perfeito, fiquei apaixonado pelo modo decisivo como você costuma agir. Você foi a pessoa que mais tempo me relacionei amorosamente na vida. Tenho na mente: Muitos passeios juntos; muitos papos; muitas músicas tocadas ao vivo. Passar pelo Recife Antigo e tomarmos uma boa cerveja. Comer bem. Dormir bem. Nosso bar e restaurante em pleno carnaval "Olinda 1ª Capital Brasileira da Cultura" - Quem viu, viu! Tentei por fim à casa inacabada... Agora estou sentindo a eternidade da tua perda, amor.


Recife, agosto de 2008
WALKER LIMA








CONFIDÊNCIAS DE AMOR EM TRÊS CAPÍTULOS - TOMO I




A  L  C  O  V  A







          Nós somos feitos de composições estranhas, tudo compunha nossa alcova, sim nosso mundo preferido sempre foi o espaço da alcova, nós construímos sonhos de composições estranhas, até nosso quarto nós erguemos com uma escada móvel, somente nós sabíamos ter acesso àquela alcova, nós fizemos tudo como deve ser num romance, até na atmosfera do nosso espaço haviam seres místicos esculpidos em toros de madeira; uma imprestável máquina de escrever ao fundo do quintal... Num recanto entre tantas coisas estava nosso quarto, na parte mais alta, alí nós fizemos nossa única história de amor e tivemos nossa alcova, como num cativeiro, nós ficamos presos, somente nós sabíamos o acesso...Escravizamos nosso bem, nosso amor, nossas almas dentro de um espaço místico, de coisas estranhas. Até a presença de uma imensa fogueira de toros de madeira esculpidas, muito fogo para renovar tudo, para limpar tudo, o fogo abrasador para purificar tudo como num processo que quisemos reiniciar nossa  prisão de amor, nossa alcova. Ainda hoje queremo retornar ali, nos encontramos sempre nos quartos, queremos nossa alcova de volta, somente nós tinhámos acesso, para colocarmos aquela escada e alcançarmos o alto quarto de amor, quando fazíamos aquele acesso ficávamos escravos da alcova. Ainda hoje procuramos nosso espaço porque ficamos escravos do nosso amor. Escravos da nossa história de cumplicidade que criamos para falarmos na noite. Estamos presos lá, entre coisas estranhas. Escravizamos nossos bens, nossas coisas. Nosso espaço de confinamento, havia a enigmática fantasia da escada, quando a colocávamos somente nós podíamos chegar lá, quando tirávamos a escada o segredo tornava-se cumplicidade, somente havia amor. Nós escravizamos o amor afim de que ele ficasse ali preso, naquela alcova de amor, e ainda hoje nós estamos procurando aquele quarto, aquele espaço de amor enigmático, entre coisas estranhas, nós e o amor presos dentro da alcova que criamos. Procuramos sempre aquele espaço de amor, eternizamos nossos sentimentos naquele quarto.


WALKER LIMA   Recife, outubro de 2007.
 
 








N A    I L H A    D O    M E L

  




          Eu ainda estava envolto na brisa e borbulhamento do mar azul, nas espumas feitas pelo movimento das águas  azuis profundas, quando te avistei pura na areia a beira do  mar, estávamos na Ilha do Mel, na mesma hora e no mesmo lugar para nossas vidas se cruzarem em meio ao oceano atlântico, e súbitamente fomos tomar chá de flor de laranjeira, era para completar um ritual de natureza calma. Pois à noite pude te tocar em sua natural condição de virgem, como numa sequência ritual de quem ministra uma liturgia, entre pessoas que nos acompanharam na subida da Serra da Cantareira, decerto foram nossos anjos em procissão nos conduzindo ao topo gelado entre as nuvens, onde dormimos juntos e fizemos nosso santuário de amor entre as nuvens que entrecortavam nossos sentimentos. Foi a sublime história de puro amor junto ao céu. Ainda num sequencial de cerimônia da natureza quando da nossa descida, até os vaga-lumes iluminaram nosso caminho de retorno entre as penhas no escuro. Descemos do altar do nosso casamento junto ao céu, entre as nuvens, perto do Criador. Eu ainda guardo as lembranças vivas dentro do coração. Eu ví o amor.


Recife, dezembro de 2007    WALKER LIMA

Obs. Onde se lê:  Serra da Cantareira, leia-se Morro do Anhangava.
 




 



P  E  R  S  P  I  C  Á  C  I  A

 
 
 

         O que aconteceu conosco foi uma batalha de amor, uma guera de amor. O ápice dessa história, eu escutei quando ouví você falar a palavra "amor" das suas entranhas...
          Eu te vejo sempre e fico encantado e atraído por tua beleza. Teus cabelos me fizeram encanto, fiquei perdido, tu me venceste, mas você pertence a um tempo passado, entretanto você continua bela, atraente. Você venceu, você me prendeu aos teus encantos e até hoje me domina, tenho medo porque vivo com teus encantos,  teus domínios. Fui vencido pelo teu amor, fui domado e como ser preso que sinto dentro de minhas profunidades, me contento em perceber que fostes dos meus domínios algum tempo, eu te possuí meu amor mas te perdí diante da tua personalidade que se viu completamente perdida em ter me domado.


WALKER LIMA
Recife, dezembro de 2007
 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MINHAS HOMENAGENS


Federico Garcia Lorca


 O PÃO,  O AMOR E O COSMOS



Eu te agradeço por todas as pessoas que, por puro amor, fazem o pão.
Plantam na Terra o amor, são as imprescindíveis ditas por Brecht,
as que derramam o sal do suor sobre a terra e amam, que cuidam no cotidiano das plantas; da Natureza.  A noite, fazem o mesmo amor que fazem sob o sol e assim espalham-no sobre a terra e a torna fértil, fazendo brotar as flores que contém o polén que as abelhas necessitam,
aí temos as reminiscências do paraíso da terra que jorrava leite e mel.
Todas as coisas erguidas, construídas e conservadas: são frutos do amor.
São as vicissitudes da Criação e a lembrança do Paraíso.
Filhos de Deus; deuses somos,  e deuses habitam aqui.
Porisso agradeço o pão que está aqui nesta mesa de amor, e assim aprendo um pouco mais sobre o poder do amor.
Plantar uma semente. Amar sem hora certa,  com suor e com o sal da terra,  e ver o fruto aqui na minha frente sobre essa mesa, é o milagre. O mesmo cálcio nesse pão é semelhante ao cálcio contido nas partículas que chegam dos confins do Mundo.
Mas,  mais importante do que a Física são   os murmúrios que só o amor produz para fazer o pão sagrado.


Walker Lima
Candeias, 3 de janeiro de 2010.






Julio Cortázar




M I T O L O G I A



Lendas e estórias fabulosas
Deuses do mundo inteiro
Divindades do Sol e da Chuva
Deuses terrestres e marítimos
Amor, casamento e parto
O poder das aves e dos animais
Árvores e plantas
Fins e recomeços
Os amores divinos
Inferno e castigo.
Essas coisas todas nos levam a sentir a Vida,
principalmente nos momentos que sentimos nossos corações fora do lugar,
como se estivessem soltos como folhas de papel ao vento,
pulando num descompasso. São os momentos mais difíceis de existir porque não estamos amando,
fora do amor não há nada senão a dor.
Não há lendas, mitos e sonhos, nem antepassados,
nem continuidade, nem o fio  condutor que nos leva ao abrigo sombrio do amor.
Junto do conforto divino,
nós sentimos o caminho e o calor da pele do próximo
junto do amor
dentro do amor
sendo deuses do amor.


Walker Lima


Maria Farinha, 2 de abril de 2010.







Ernesto Sabato










Eu divido o meu pão de hoje para amanhã
poetiso minha manhã enquanto ouço o sôfrego,
barulho infernal dos mortos-vivos,
buscam a Deus aonde Ele não está.
Deixam "seus" pássaros nas gaiolas e saem para "trabalhar" sem amor.
Não levarei nada deste mundo, todavia as palavras que carregas consigo eu as coloquei com afinco em seu coração rudimentar cheio de pseudociências. Sou portanto o ghost-writer em busca das vertentes para melhor falar-te de amor, mas do mesmo modo que divido o pão, tenho que dividir o amor, senão pergunto: Como vou guardar o meu amor se o mundo anda na contramão? Dentro da microevolução?
Quero soltar o pássaro que se encontra preso por seu "amor" e comer o pão do nosso trabalho, amar o amanhecer do canto e prender quem rouba sentimentos não permitindo a Vida ir para o além.
Eu me alimento das letras, respiro as ideias e vejo o canto dos pássaros, me aficciono no labor,
invento o abstrato e resido nele.



 
Walker Lima



Olinda, 17 de junho de 2011.




Clarice Lispector























silêncio

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A LIBERDADE

Após um tempo,
Aprendemos a diferença sutil
Entre segurar uma mão
E acorrentar uma alma,
E aprendemos
...Que o amor não significa deitar-se
E uma companhia não significa segurança
E começamos a aprender...
Que os beijos não são contratos
E os presentes não são promessas
E começamos a aceitar as derrotas
De cabeça levantada e os olhos abertos
Aprendemos a construir
Todos os seus caminhos de hoje,
Porque a terra amanhã
É demasiado incerta para planos...
E os futuros têm um forma de ficarem
Pela metade.
E depois de um tempo
Aprendemos que se for demasiado,
Até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim
E decoramos nossa própria alma,
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
Que somos realmente fortes,
Que valemos realmente a pena,
E aprendemos e aprendemos...
E em cada dia aprendemos.


Jorge Luís Borges



            Quando o assunto é  liberdade é  muito comum imediatamente pensar-se na liberdade de  ir e vir, entretanto, para compreendê-la é muito mais do que a simples locomoção física. Ou, como se tornou moda dizer-se: é uma calça velha e desbotada. E pronto!
            A liberdade também não se contém apenas no plano pensamental, vai além do abstrato, permita-me a redudância:  e muito além do campo da moral e do metafísico, vai além da própria consciência.
            Numa escala de valores,  das coisas que mais mexem e interessam ao ser humano, em primeiro lugar está a saúde, e imediatamente  a  liberdade. São estes os dois valores supremos  para  humanidade, queiramos ou não.
            Para entendermos seu significado precisamos reverberar as seguintes  palavras-chave que trazem em seu bojo o sentido de liberdade: amor, livre, salvo, independência, autodeterminação, vontade, autonomia, livre arbítrio, justiça, facilidade, bondade, virtude, desembaraço, escolha, riqueza, dignidade,  proteção cidadania, permissão, licença, virtude, concessão, confiança, divergência, imunidade, soberania, direitos, legitimidade,  legalidade, franquia, diversidade, desobrigação, pós-conceito, capacidade, alcance, familiaridade, garantias, soltura, anistia, alvará, álibi, etc. etc.
            Precisamos refletir no sentido oposto à liberdade: desamor, escravidão, servidão, vassalagem, cativeiro, privação, sujeição, submissão, jugo, injustiça, opressão,  maldade, arbítrio, proibição, empecilho,  limites, condicionamento, pobreza, imposição,  miséria, ignorância, superstição, censura, obediência, regras, coerção, obrigação,  ilegitimidade, entrave,  ilegalidade,  infração, repressão, obstáculo, impedimento, constragimento,  pré-conceito,  descriminação,  restrição, tirania, determinismo, ditadura, unanimidade, vigilância, pecado, estranheza, punição, liberticídio, etc. etc.
            Palavra que ninguém explica, mas que todos entendem,  como bem disse a poetisa Cecília Meireles.



A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida.
Miguel Cervantes



               Para prosseguir com o tema tão "exaurido" pela literatura em geral, gostaria que fosse feita a seguinte reflexão: Você já pensou em quem nasceu para voar e não pode voar?!? A exemplo de um pássaro que vive preso dentro de uma gaiola?!? De um homem que vive cheio de ideias, e porque não dizer; que vive livre, e tem que viver com uma Carteira de Trabalho assinada ?!? Provavelmente a CTPS de hoje é a Carta de Alforria de ontem.
               Este tema está entrelaçado com praticamente tudo que existe. Principalmente como encará-lo sem a ótica da: Religião; da Filosofia; da Economia; da História; da Sociologia; da História da Arte e do mundo Jurídico?
               A Religião dentre os processos sociais é o que mais perdura na História, significa dizer que as diversas religiões existentes tem trajetórias de milênios. E do ponto de vista religioso o que representa a liberdade?  Para o cristão, por exemplo, o próprio nome Jesus significa "aquele que liberta".
               Como conceber a liberdade como algo individual? Ou seja, depende apenas do "foro íntimo" de cada um? Como tão clara definição: "A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo." determinou Fernando Pessoa.
              Então, tem a liberdade aqulele que a exerce sozinho? Trata-se portanto de algo puramente no plano pensamental, ou ao contrário, depende de tudo e de todos?  A chamada liberdade metafísica, interior ou subjetiva, é confundida muitas vezes com a liberdade individual.  Ou em justaposição: é algo conjuntural, de natureza social. Em suma, de que adianta ser livre,  da cabeça pra dentro,  se lá fora você não é livre?!? Ou vice-versa.



A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.
Mahatma Gandhi



             Atualmente tem sido sintetizado que "educar é estabelecer os limites". Ao mesmo passo, o caos conceitual  é generalizado quando confunde-se: liberdade com anarquia; liberdade com desordem; liberdade com consumismo, etc. etc. 
            Quais as origens da liberdade moderna?  É um assunto que remonta a própria História anglo-francesa, e não é este o nosso enfoque.
            Por outro lado, sem a troca de ideias não há progresso do pensamento humano, quer dizer, a transmissão pela palavra, escrita, ou por quaisquer meios de comunicação é fundamental para evolução, palavra prima legítima da Liberdade.
             Mas o significado exato é...



Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.
Simone de Beauvoir




" Nós temos sempre necessidade de pertencer à alguma coisa; e a liberdade plena seria a de não pertencer a coisa nenhuma. Mas como é que se pode não pertencer à língua que se aprendeu, à língua com que se comunica, e neste caso, a língua com que se escreve?

Se o leitor, o leitor de livros; aquele que gosta de ler, não se limitar àquilo que se faz agora, se ele andar pra traz e começar do princípio, e poder ler os primitivos e os grandes cronistas e depois os grandes poetas, a língua passa a ser algo mais que um mero instrumento de comunicação, transformando-se numa mina inesgotável de beleza e valor."
José Saramago



Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.
Clarice Lispector




Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam minhas asas.
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma.

E em ti a ilusão de cada dia.

Chegas como o sereno às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que cantavas no vento

como os pinheiros e como os hastes.
Como eles és alta e taciturna.
e entristeces prontamente, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.

Te povoa ecos e vozes nostálgicas.
eu despertei e as vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.
                                                                       Pablo Neruda


"Estremeço de prazer por entre a novidade de usar palavras que formam intenso matagal. Luto por conquistar mais profundamente a minha liberdade de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário: sou sozinha, eu e minha liberdade.
É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo, mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo e que é sem fronteiras perceptíveis.
Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo - cerco-me por plantas carnívoras e animais legendários, tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico.
Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia: sou orgânica. E não me indago sobre os meus motivos. Mergulho na quase dor de uma intensa alegria – e para me enfeitar nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens"...
Clarice Lispector


"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.


Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.


Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado."
Rubem Alves


                             

Sou um homem livre – e preciso da minha liberdade. Preciso estar
sozinho. Preciso meditar na minha vergonha e no desespero em retiro;
preciso da luz do sol e das pedras do calçamento das ruas sem
companheiros, sem conversação, frente a frente comigo, apenas com a
música do meu coração como companhia. Que querem vocês de mim? Quando
tenho algo a dizer, ponho-o em letra de forma. Quando tenho algo a dar,
dou-o. Sua curiosidade indiscreta faz virar meu estômago! Seus
cumprimentos humilham-me! Seu chá envenena-me! Nada devo a ninguém.
Seria responsável somente perante Deus – se Ele existisse!
Henry Miller




Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.







sexta-feira, 10 de junho de 2011

O MAPA

           Muito antes de toda civilização ter seus primórdios, há muito tempo mesmo,  quando  nem sequer haviam  vestígios da História. Quanto mais se pensar em escrita! Nada,  absolutamente nada  existia em termos  dos caminhos a serem trilhados pela Humanidade...
           Misticamente recebí todas as informações daquilo tudo que haveria de ocorrer, tudo veio barossensível e  de alhures... Fiquei alucinótico ao me deparar, há milêncios atrás,  diante da seguinte distribuição de povos que haveriam de habitar a futura "América" ou  o chamado  "Novo Mundo". Conseguí com muita acuidade, modéstia a parte,  colocar em ordem; do norte para o sul, a  tal distribuição:




"Estamos próximos mas estamos há uma distância incomensurável, estamos próximos mas estamos sós"
Ernesto Sabato




          Preciso mostrar mais de perto:



Eu não evoluo, sou. Eu não procuro, descubro.
Pablo Picasso


     

            Muito tempo depois, após o surgimento da História através da escrita. Após a Idade Antiga, e após o transcorrer a Idade Média. E ao chegar a Idade Moderna...  exatamente em 1480 DC o mundo foi dividido, entre duas potências,  pela primeira vez,  através do Tratado de Toledo, criava-se dois hemisférios, ao norte: espanhol, e ao sul: português. Foi muita história a "medição"... sobretudo porque quando se jogava qualquer objeto a partir dos Açores,   da marca pretendida (pela Espanha) de 100 léguas a oeste, tal objeto  só caía em pleno Oceano Atlântico! Finalmente, sem a participação do papa espanhol à época(Alexandre VI), foi assinado em 1494 o Tratado, na cidade de Tordesilhas, dessa forma Portugal  impôs 370 léguas a  oeste de Cabo Verde, e desta feita ficou com o domínio exclusivo de ambas as margens do Atlântico incorporando um Brasil que só seria "descoberto" seis anos depois.  Estabeleceu-se as bases do Império luso-afro-brasileiro. Ficaram de fora da tal "divisão":  França, Inglaterra, Holanda, e outros importantes  países à época. Fato é que "dividiram o mundo ao meio" literalmente, naquilo que ficou vulgarmente conhecido como o "Testamento de Adão"...
            Antigos povos habitavam "Pindorama" como se chamava o Brasil antes disso tudo,  e ao invés, de terem chamado os nativos habitantes por suas originais denominações, não, passaram a chamá-los de "índios" justificando essa nomenclatura sob a falsa fundamentação que por ocasião do "descobrimento" tinham achado as Índias, quando houvera o "desvio" da esquadra de Cabral devido a tempestades. 
            No dossiê recebido por mim em eras incontáveis... dentre a documentação, havia o seguinte mapa intitulado "O Inegociável":




Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade.
Federico Fellini


            Em intermitentes ocasiões fiquei pensando na amoralidade daquilo tudo. Mesmo dentro da mística situação na qual me encontrava, ficava estarrecido com tamanha desventura de um povo, ou melhor, de vários povos, de tantos lugares. Então, eu tomaria uma espécie de batiscafo e mergulharia  na fundura possível para poder aquilatar aquela verdadeira turbação. O esbulho causado por navegantes estrangeiros vindos em massa. É bem certo que sempre, sempre, houveram diversos navegadores oriundos de  diferentes localidades: ora eram fenícios, ora eram escandinavos, mas ocorreu a vida inteira de estarem nessas terras e minha maior preocupação persiste até o dia de hoje, se resume à grande desvantagem em relação as mais belas mulheres nativas, e minha confusão foi tamanha que tive de fazer determinadas anotações em relação  ao realizado menoscabo :



Um livro é um grande cemitério onde, sobre a maioria dos túmulos, não se podem mais ler os nomes apagados.
Marcel Proust



            Fiquei embarcado numa embaraçosa elucubração, não saía do meu pensamento a turbação, aquilo me feria e me magoava, precisava de um medicativo, mas como procederia se não tinha medicomania... e no meu estranho pensamental vinham os instrumentos; não médicos, mas náuticos de navegação: Quadrantes, Oitantes, Grafômetros, Astrolábios, Balestilhas e uma parafernália circudavam minha mente sem parar. Minha honestidade ficava embananada. Amainava meu imaginário a justaposição ao refletir naquelas lindas mulheres...persuasivo  projetava-as cinco séculos a frente:




Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Charles Baudelaire
          
            Minha honorabilidade estava sendo provada, a libidinização já alcançava um processo sem antecedentes na minha instância mais íntima. Abordava a conjuntura, me ardia envolto a tantas questões, questionava em voz alta: O que poderei fazer?!? 
             Partí então para fazer um exercício de mimese, passei a mineralizar nomes...os nomes das importantes mulheres, fiz o exercício de garimpagem na memória eloquente e profunda, na verdade não conseguiria  jamás  esquecer os originais nomes delas, senão vejamos:



Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
Nelson Rodrigues

            Sofrí uma verdadeira parbolização, resultei sem minhas melhores qualidades pensamentais. Destarte, o que poderia fazer? Faria paréctase?!? Ou dizendo em miúdos: encheria a linguiça com quê? Como procederia axiologicamente falando a respeito de tamanha obstinação em relação às mulheres? As mais belas mulheres do mundo, seriam alí forjadas naquela história inúmeras vezes posteriormente contadas por respeitáveis contigentes de:  historiadores, sociólogos e antropólogos...enquanto eu  apenas delirava:



"Assovia o vento dentro de mim.
Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara."
Eduardo Galeano

            No fundo no fundo minha paura e o meu ciúme iam  muito além das belezas físicas  desfeitas e de todo patrimônio estético-cultural para sempre invadido a partir daquela contemporização, equivale dizer, com a invasão em massa dos colonizadores europeus, tendo ainda havido o disparate de terem mandado para sua colônia o que havia de pior na metrópole; em termos de "gente",  através da pena de degredo.
              Fiquei desgostoso com a História porquanto nunca conhecí as mulheres na sua naturalidade , vivendo conjuntamente com a Natureza, há quem fale que isto não passa de Romantismo, pois então sou romântico.  Ou fiquei após a prematura revelação supra  mencionada, mas é bem verdade que minha única e exclusiva preocupação seria preservar as lindas mulheres do arquétipo consciente que trago em mim agora.
             Mas algo que me apraz até hoje entre as mulheres, talvez somente existente na literatura...é o amor de Penélope por Ulisses, no tocante à espera dela por seu grande amor...Mas você há de perguntar o que tem isso a ver? Respondo-lhe: esse é o aspecto do sentimento  verdadeiro mais desejado por um homem.  E a História impossibilitou de sentirmos isso para todo sempre. Como bem disse James Joyce: "A História é um pesadelo de que tento acordar".



Nunca tive os olhos tão claros e o sorriso em tanta loucura. Sinto-me toda igual às árvores: solítária, perfeita e pura
Cecília Meireles




O que será ser só
Quando outro dia amanhecer?
Será recomeçar?
Será ser livre sem querer?
Chico Buarque