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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CITOYEN DU MONDE





    Num país onde os índices de leitura são tão baixos, não sei o que vai acontecer com a minha morte apesar de que toda pessoa que tem história poderá virar museu. Não escuto nada, prefiro o silêncio. Aliás, as frases não retomam o viço da conversa aberta num mundo movido por questões ideológicas ultrapassadas. Para um escritor é consolador encontrar um público que paga para o ouvir, o antiacontecimento.
    Foi então que veio a impressão que estava dentro da cabeça de um artista-símbolo caminhando ininterruptamente no desfile-protesto, funcionando como um ponto de interseção de utopias, vanguardeando a loucura ao limite do possível pois havia abandonado meu autocontrole restando a emoção guardada com tranquilidade. Tal qual a história de um imenso desejo sem ambivalências, algo que fosse um espelho da minha personalidade. Prosseguiria assim como um cronista bem-humorado e sua rica verve criativa sem sedições de contrários, a mercê dos revolucionários sem revolução, conseguindo assimilar alguma abstração além do estereótipo das demandas educacionais uma vez que o pensamento é um trânsito permanente com ausência de ideias próprias, capaz de iluminar temas complexos sob o influxo da descolonização.
    Movimento autointitulado e imerso na solidão, essa essência viva da alma em meio a neurose coletiva dessa sociedade doentia herdada do Capitalismo, uma verdadeira fábrica de produzir loucos nesse território infernal de maledicências do fundamentalismo de mercado, desse mundo frenético e invidualizado, apontando o grau de incivilidade onde troca-se ascetismo por paganismo. Uma verdadeira vida de sentido sem-sentido, resumindo: uma fuga da realidade.
    Porém prossigo nessa visão neorromântica entre a humanidade e a natureza, nessas vertentes que não deveriam ser de ruptura mas de essência indizível, donde venho há anos realizando uma sondagem, analisando diferentes graus de inocência e lubricidade, de caráter e temperamento. Relutando para as expressões não acabarem descontextualizadas, sussurrando a eternidade dos sentimentos.  Sobretudo porque não quero um acervo embrulhado em papel de seda, mantido em embalagens especiais para os tecidos escritos a suor não se deteriorarem. Quero descarregar na linguagem, como quem vem de longo retiro espiritual; fazendo como uma arquitetura planejada que faz a luz refletir de todos os cantos. Ter a concretude como método e produzir leituras próprias me debruçando sobre trajetórias de vidas e momentos de rupturas radicais com uma riqueza impressionante de detalhes, com expressões transcedendo a simples retórica,  buscando visibilidade não em espetáculos literários mas na produção cultural  periférica, procurando os leitores compulsivos,  amantes de fazeres e saberes que se desenvolvem fora dos círculos tradicionais, nossa engenharia popular. Enfim, justificando a existência por uma atividade aqui meio confessionária  nascida no coração das instituições mas que é galvanizada pela experiência humana fora do olho do furacão das ambivalências e dos intervalos salutares à vida insalubre do escritor, desligado óbviamente da vanguarda concretista e da poesia computorizada, ademais do experimentalismo brasileiro.
    Vou nessa marcha por não ter estômago para acompanhar as vociferações sobre a diluição das condições socioculturais com ênfase nas ciências sociais somente porque parecem estarem sendo enterradas de cima abaixo do mapa, muito embora grito aos cantos do mundo sob a luz das emoções  que o refúgio da alma é onde se ressalta  os prazeres simples da vida, ambiente propício à difusão cultural. Muito embora possa parecer que esta ideia tenha uma estrutura física muito suave, ela é ao mesmo tempo, muito densa em significados. Destarte, como preencher um espaço já tão carregado de significado? Na verdade queria fazer alguma diferença e quanta diferença fez e faz. Sei que desde que você iniciou a ler este manifesto em estranhas flutuações de fruição do belo, cada um de vós verte o significado reticente,  muito embora tenha topado atuar como crítico extraordinário,  próprio daqueles que receberam uma educação esmerada e ao mesmo tempo cheia dessa  imagem cinematográfica transgressora. Não se preocupe com isso porque desde que você iniciou a leitura teve um lugar no meu coração, sério! Sem arrematar meu pensamento, afinal de contas, caminhos sinuosos favorecem à contemplação.
    Não seria mais fácil capitanear as ideias para passarmos por cima do sistema político universal? Trabalharmos melhor em torno de uma Arqueologia Industrial e das manifestações retrógradas ressurgidas? Contudo que chegássemos a uma posição diametralmente oposta desde que não houvessem também assuntos inertes tais como: A Contracultura ou a Crença no Potencial Revolucionário dos Marginalizados. E ainda temas afins: "Consciousness" ou "Expanding Drugs". As mudanças presenciariam as caracterísicas originais e a memória. Mas se existe algo como uma intelectualidade no Brasil, talvez seja vítima de um equívoco. A seu modo, ela o é. Mas a consciência sobre a mudança dos ventos é nítida.


                        Olinda, 15 de novembro de 2011.

                            WALKER LIMA








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